Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Dakṣiṇāmūrti Stotram, aula 4, resumo - Vaidika

Duração da aula 45m05s; cânticos iniciais.

Dakṣiṇāmūrti Stotram, também chamado de Dakṣiṇāmūrti Aṣṭakam, é um texto que tem o peso de Upaniṣad, ou Brahma Sūtra. Na realidade, antes de Brahma Sūtra, geralmente, cantam-se estes versos pois são considerados muito importantes. Também, em homenagem a Śaṅkara canta-se muito esta obra.

No mundo, estabelecem-se vário tipos de relacionamento, como o relacionamento com o corpo – ele é o efeito de alguma coisa (kāryam), ele tem uma causa (kāraṇa), que vai produzir um corpo, uma situação de família, um tipo de mente (o karma de vidas passadas). A todo o momento, vê-se a relação de “causa-efeito” (kāraṇa, kāryam). Nada é isolado. As minhas escolhas irão criar um corpo futuro, em relação a uma coisa ele é causa, e, noutras efeito. Constantemente, as coisas estão misturadas, causa e efeito, isso refere-se a mithyā, aquilo que é aparente, aquilo que não é absoluto, que não é possível determinar.

Uma outra relação é aquela do aluno e do professor. Ninguém é absoluta e constantemente professor. Na frente do seu próprio professor, é-se sempre aluno. Este conhecimento que me fez “grande” deve-se a um professor. Em relação a alguns é-se professor, e, a outros aluno.

As relações não são absolutas mas relativas e em relação a pontos de referência. A consciência é absoluta, tudo o resto é alguma coisa de um ponto de vista, e, outra coisa de outro ponto de vista.

Também através da relação pai e filho: todo o pai foi filho, em algum momento, e em potência uma pessoa poderá ser pai/mãe. No universo nada é absoluto, as coisas existem em relação a pontos de referência e existem sempre que a mente está presente, (acordado ou sonhando). As coisas são produzidas através de māyā, a ilusão, como todos os objetos de ouro são, fundamentalmente, ouro.

A professora Gloria fala detalhadamente sobre as 8 formas de īśvara.

No último verso, é dado o fruto deste estudo (phalam śruti): o conhecimento. Escutando este stava/stuti, refletindo no significado das palavras, meditando/contemplando e cantando estes versos em formato kīrtana cria-se uma relação, um víncul. A repetição no olhar [a forma], cantar e repensar, cria uma relação - vem a descoberta que sou o todo, sarva, do tamanho do universo, o conhecimento que eu sou esse livre de limitação. Essa pessoa ganha o estatuto de īśvaratvam, ganha-se a identidade com īśvara, eu não sou diferente dele, não sou separado dele. O principal fruto é o entendimento dessa não separação com īśvara, ver a realidade que vai além dos meus olhos, a minha natureza fundamental livre de limitação.

O que quero é descobrir a paz, a plenitude, a satisfação dentro de mim.

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Dakṣiṇāmūrti Stotram, aula 3, resumo - Vaidika

Duração da aula 45m15s; cânticos iniciais.

Quando se fala de darśana, uma visão/filosofia/interpretação parcial do Veda, sobre a Realidade Última, tattva, a Verdade do universo e mokṣa, a liberação, darśana confere ou discute as definições do Veda. Quando o Veda fala nos rituais, a pessoa é considerada como pessoa (indivíduo) porque brahma não faz ritual; o Veda também tem a visão de algo a mais do relativo e essa visão do absoluto é a visão típica do Veda. Então, se as darśanas dizem algo sobre a Verdade pode haver refutação porque o Veda fala da visão advaita, a “visão maior” - tattvamasi.

Conta-se a historia de Kumarilabata e Śaṅkara para ilustrar a necessidade de conhecer outros pontos de vista para se poder refutar com conhecimento de causa outras visões, como o budismo, acerca da Realidade Última.

No verso 5, Śaṅkara menciona que:
a) para alguns, “o Eu”, a realidade, é o corpo – portanto “aproveite o corpo ao máximo e tenha tantos prazeres quanto possíveis, sem se importar com dharma, já que, quando acabar o corpo acaba tudo!”. Do género: “faça dívidas, já que, depois de morrer você já não paga!”.
b) para outros, mais que o corpo o prāṇa, o prāṇa é o mais importante – ainda assim é materialista (“cuidar ao máximo da saúde, mas, aproveite e divirta-se”);
c) outros dizem que é os sentidos e a mente, “o Eu é a mente” – então torna-se necessário ter uma boa mente.
d) outros diz também: “não, a realidade é calām buddhi, a consciência que está sempre em movimento, a cada momento uma nova consciência”;
e) outros ainda dizem: “Não é isso! Na hora que se está consigo mesmo, em sono profundo, não existe nada, apenas um vazio total, e esse vazio é você, śūnyam.” Referindo-se ao zen budismo, o sujeito quando se dissolve é esse vazio, sem forma, sem nada.

Para Śaṅkara, todos eles estão enganados quanto à realidade, e “são como mulheres”, latu sensu, já que, independentemente de perceberem as explicações não as seguem pois sentem de outra forma, sem lógica. Ou, são como as crianças, sem maturidade, sem sustentarem os seus argumentos. Ou como os cegos, que se fiam somente na experiência e na lógica e não no śastra. Ou como o idiota, que nem vale a pena escutar ou seguir, ou seja, os śūnya vada – raciocinam e argumentam mas concluem que o Eu é um vazio, “como alguém pode dizer que Eu não existo – o Eu é śūnyam”.

“Saudações a esse mestre que destrói todos os grandes erros criados por essa projeção de māyā”. Ela é maravilhosa porque projecta cada coisa diferente para cada pessoa, e, mesmo olhando a mesma coisa vêem coisas diferentes.

Quando existe eclipse, do sol ou da lua, a terra cobre-os parcialmente. Primeiro, a luz que tudo ilumina é o sol e, segundo, ainda se vê uma luz ao seu redor. Embora estejam ocultados há evidências que estejam ali. Neste verso, diz que eles apesar de ocultados têm uma forma de saber que estão ali , ou seja, da mesma forma no sono profundo há uma maneira de saber que “o Eu” está ali, pois, na hora de acordar a pessoa diz: “dormi, mas dormi bem”. Há ausência do objeto mas há a consciência disso. O sol apesar de eclipsado, ocultado, não está ausente. Da mesma maneira, encoberto por essa māyā, no sono profundo, com os sentidos recolhidos quando acorda diz “eu dormi” - essa afirmação demonstra que havia qualquer coisa ali. A memória, “acordado, dormindo, acordado – eu estava acordado, dormi e acordei” é o maior argumento. Na Gītā, Kṛṣṇa diz que é a memória e o esquecimento. O esquecimento também é ótimo e necessário para podermos crescer, lembranças e esquecimentos são uma grande benção.

Fala-se também de vários estados: a infância, a adolescência, a fase adulta e de idoso. Tudo isso é passado por um sujeito que é o mesmo apesar das fases mudar. O conhecimento muda mas “o Eu” continua. Também existe o acordado, o sonhando o dormindo. As várias condições como corpo físico, subtil, causal, constantemente mudando e mutuamente oposto – infância não é adolescência nem estado adulto. Quando uma acontece a outra não acontece, o acordado não é o dormindo. É único e está em constante transformação. Porém, existe um anuvartamānam, uma continuidade – a experiência do constante mutante é uma experiência, mas, apesar disso, existe alguma coisa que continua “anuvartamānam: aham, aham, aham”. O conceito de Eu é Eu de qualquer maneira, “eu na infancia”, “eu na junventude”, “eu na fase adulta”, acrescentando adjetivos, “gordo”, “pequeno”, etc, mas, “só Eu era presença”. Existe uma presença constante apesar das mudanças. O intelecto estava sempre brilhante da mesma maneira, consciente, sempre brilhando. Esse mestre que desdobra, revela o sujeito, “o Eu”, aos seus discípulos, devotos desse conhecimento, é Dakṣiṇāmūrti (os outros professores só abrem a boca). A esse as minhas reverências.

Domingo, 20 de Novembro de 2011

Dakṣiṇāmūrti Stotram, aula 2, resumo - Vaidika

Duração da aula: 59m33; cânticos iniciais.

A professora fala sobre o livro de Svāmī Tattvavidānanda, “Dakṣiṇāmūrti Stotram,” elogiando-o e aconselhando a sua leitura a quem procura uma análise mais detalhada do texto.

Nas três primeiras linhas o texto fala alguma coisa diferente sobre esse conhecimento e na última sobre Dakṣiṇāmūrti, o mestre. O mestre Dakṣiṇāmūrti que não tem forma específica, que é todas as formas, que está aqui sobre a forma do meu guru mūrti (o meu mestre) é, na verdade, Dakṣiṇāmūrti falando.

Essa criação é uma multiplicidade formas, sons, texturas, cheiros e sabores, todo o universo é muito variado – todo o universo é nāma/rūpa nome e forma. Nome e forma não têm uma existência independente de consciência. O objeto é, a flor é, o livro é – parece existir uma diferença entre os dois mas não existe diferença em termos da existência. Existe uma variedade de coisas quando se foca em rūpa mas a existência não pertence a flor nem a livro – a existência não tem forma específica e não pertence ao objeto, é comum a todo o universo e na ausência do universo a existência é. A existência é comum ao sujeito e ao objecto, a existência é constante. A não-existência não é um vácuo, um vazio, a não existência é. A existência é a verdade do sujeito que pertence mas ao mesmo tempo não pertence ao sujeito está alem do sujeito. É a base do sujeito, a consciência e a existência é um fator constante, satya, real, a única coisa que é sempre. Todos os nomes e formas vão e vêm constantemente.
A professora dá o exemplo do ouro que assume várias formas e nomes, cordão, pingente, brinco colar para mostrar que todo o ouro na verdade não varia, apenas os nomes e formas comparando com a existência e consciência que é constante e a base. Brinco não existe separado de ouro, ouro existe separado de brinco. As formas são projeções e não têm um conteúdo em si mesmo, não têm uma realidade em si mesmo. O poder de māyā é que faz tudo aparecer, como na experiência da cobra e da corda.

A primeira estrutura deśakāla, tempo/espaço, surge para que seja possível a perceção do próprio universo, a sequência do momento presente dá-nos a sensação do minuto, da hora, do dia – são projeção na nossa cabeça – sessenta momentos presentes e dizemos “passou-se um minuto”, “sete dias, uma semana”, reduzido isso tudo resta uma presença sat/cit. Na verdade, o tempo é uma sequência de sat/cit, pontos de referência projetados pela própria mente.
Esse universo é bīja (semente) que se torna uma árvore continuamente, num ciclo não-manifesto/manifesto. A existência em potencial, manifestação e dissolução por māyā. Em análise, tudo é sat/cit. Todo o universo é visto como externo já que a minha referência é o corpo, mas do ponto do visto da consciência tudo isso é interno - īśvara é chamado de “o grande ilusionista” porque faz aparecer esse universo inteiro do seu próprio saṅkalpa, como um grande yogi que tem o poder de criar, projetar, iludir. O material do universo é do próprio īśvara, não vem de forma.

Em seguida a professora faz uma análise detalhada dos versos seguintes.

Imagem retirada de Original Vedic Art

Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

Dakṣiṇāmūrti Stotram, aula 1, resumo - Vaidika

Duração da aula: 1h17m21s; cânticos iniciais.

Dakṣiṇāmūrti é uma forma de Śiva que invoca a destruição da ignorância e aquisição de conhecimento. Os devotos de Dakṣiṇāmūrti são pessoas que desejam o conhecimento e a capacitação para esse conhecimento.

No norte [da Índia] não existem muitos templos a Dakṣiṇāmūrti porque não é uma forma muito especifica, já que, o povo vai mais atrás das eliminações dos obstáculos na sua vida e a satisfação dos prazeres (desejos).

Aqueles que vão atrás do conhecimento são os devotos de Dakṣiṇāmūrti. No sul, Svāmīji instituiu os templos a Dakṣiṇāmūrti nos āśrams.

Candramauli, discípulo de Svāmīji, encontrou uma pedra parecida com um Śiva Liṅga na beira do Ganges e procurou levá-la para o āśram, mas não consegui levá-la nem com a ajuda de transeuntes. Falou com o Svāmīji e ele consegui levantá-la à primeira tentativa. Assim, fizeram um templo a Śiva com essa pedra em Rishikesh. No início, o templo era pequeno e com o tempo foi aumentando.

Dakṣiṇāmūrti é um texto a Śaṅkara. Na imagem de Dakṣiṇāmūrti vê-se que ele tem dois brincos, o do lado direito é masculino e o do lado esquerdo é feminino, simbolizando puruṣa e prakṛti, ou seja, o aspeto masculino e feminino imbutidos nele. Tem também um ḍamaru simbolizando o espaço, os vedas na mão, uma bandana no cabelo, gaṅgā na água da cabeça, pṛthivī é a própria estrutura da imagem, o sol e a lua – hastamūrti; os cinco elementos mais o sol e a lua, e, mais a pessoa que olha para a imagem (jīva, o indivíduo). Também se pode dizer que os ṛṣi são os jīva.

No seu pé tem apasmāra, um āsura com cara de adulto e forma de bebé (“the child within”) – ele é a ignorância, a pessoa que não amadureceu – um bébé no corpo de adulto, dependente, com medo. Dakṣiṇāmūrti não está a destruir apasmāra, mas a controlá-lo. A ignorância é māyā e Dakṣiṇāmūrti não está a deixá-la manifestar-se demais.

Nandī está junto a Dakṣiṇāmūrti, representando o discípulo, o dharma e a alegria do conhecimento, através de Nandī se vê Śiva - que não é diferente de mim.

Dakṣiṇā + mūrti – aquele cuja forma está virada para o Sul. Dakṣiṇā quer dizer o lado direito, na Índia a referência é o Este daí que a frente é Leste, as costas Oeste, o lado direito o Sul, então vāma é o esquerdo que é o Norte. Então Dakṣiṇāmūrti está virado para o Sul, o Norte é o conhecimento, o ponto de atração, o Leste também (o nascer do Sol, o conhecimento) mas Dakṣiṇāmūrti sempre olha o Sul, pois ele está além da morte porque ele é além do tempo. Ganesha não pode olhar para o Sul daí que ele esteja a olhar para o leste. Ou Dakṣiṇ e amūrti, ou seja, não tem forma especifica e é dakṣā aquele que possui toda a a capacidade de manter, destruir.

Em seguida, a professora faz a análise verso-a-verso até ao verso 5.

Quinta-feira, 21 de Abril de 2011

Bhagavad Gita, Aula 19 resumo - Vaidika, Maia

Duração da aula 50m03s; cânticos iniciais e invocação à Gītā.

Na primeira parte do capítulo, Arjuna quis saber a diferença entre tyāga (renúncia na ação) e sannyasa (renúncia da ação), e, yoga (moderação). O conhecimento do Eu que nada faz (ātman) é o conhecimento de naiṣkarmya siddhi.

No verso 46, Kṛṣṇa volta à atitude de karma yoga. Para obter o conhecimento do Eu é necessária a exposição ao ensinamento (escutar), refletir e contemplar sobre o que foi escutado e, ao mesmo tempo, trazer īśvara para a vida para tirar a força do ego (ahaṅkāra). Isso acontece ao longo do tempo.

Kṛṣṇa fala a Arjuna para fazer o seu papel, mesmo que pareça destituído de qualidades, e, deixar os outros fazerem os seus papéis.

A partir do verso 50, Kṛṣṇa faz um resumo do ensinamento, nomeadamente, como tranquilizar a mente e conhecer o absoluto (karma yoga e jñānam). No verso 63, Kṛṣṇa diz a Arjuna que o maior segredo de todos é a entrega a um guru que possa ensinar, caso contrário, o conhecimento não surge e mantêm-se confuso, não faz sentido e não é possível usufruir dele. Também é o maior segredo de todos porque esse conhecimento está escondido dentro de cada um, em si-mesmo - que Eu sou o Todo, já completo, ilimitado.

No verso 66 termina todo o ensinamento. Esse verso é cantado quando se finaliza o estudo, que reconhece que eu já sou a Consciência que nada faz, ātman, e que em mim busco refúgio. Esse conhecimento traz a maturidade da mente e conduz conhecimento. Kṛṣṇa fala "não se entregue ao sofrimento", o sofrimento/ilusão elimina-se com a clareza do autoconhecimento.

Nos 12 versos seguintes, Kṛṣṇa refere que esse ensinamento deve ser ensinado àquela pessoa que o deseja: "Onde existir uma pessoa que deseje conhecer este ensinamento (um Arjuna) e uma pessoa que o ensine (Kṛṣṇa), aí estarei Eu". Uma condição deve estar presente também, a pessoa que deseja conhecer deve estar livre de inveja, isto é, com uma mente objetiva. Arjuna diz, finalmente, "a ilusão foi-se!"

A professora Glória, refere que é importante dar a oportunidade a quem escuta pronunciar-se se entendeu ou se ainda tem dúvidas.

Arjuna diz, então, que está livre de dúvida e que agirá de acordo com o ensinamento.

Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Bhagavad Gita, Aula 18 resumo - Vaidika, Maia

Duração da aula 1h09m58s; cânticos iniciais.

O capítulo XVIII é um resumo de toda a Gītā (a guerra dura 18 dias e a Gītā tem 18 capítulos).

No início, Arjuna pergunta a Kṛṣṇa a diferença entre tyāga e sannyāsa. Kṛṣṇa explica que tyāga está relacionado com karma yoga e sannyāsa com a busca de conhecimento. Neste capítulo, Kṛṣṇa faz um resumo do ensinamento da Gītā e, no final (este capítulo é longo - tem 78 versos), Arjuna entende finalmente a situação.

Kṛṣṇa explica que tyāga é em relação aos frutos da ação. A capacidade de receber o que vem sem reação é chamado de tyāga - atitude de prasāda. Sannyāsa é definido como a renúncia de alguns tipos de ação

A professora Glória fala sobre varnas, āśramas e sobre os diferente tipos de sannyāsa falados no capítulo VI: āpat, vividiṣā e vidvat sannyāsa. A renúncia é uma maturidade, uma apreciação de si mesmo. Kṛṣṇa refere que mesmo abandonando a ação algumas coisas devem ser feitas:
1) yajña - relação com o Todo, quer seja oração ou ritual;
2) dānam - capacidade de doar, o necessário, na hora certa, da maneira certa, nem que seja apenas tempo para escutar alguém;
3) tapas - disciplina, segurar os sentidos que querem "correr" de acordo com os desejos e a mente.

Kṛṣṇa fala sobre a ação do verso 12 ao 45 (quase um capitulo independente). Ele procura tornar claro a renúncia da ação, como já tinha sido falado no capítulo III - estar livre da ação é saber que ātman, o eu, nada faz. Como esta matéria é difícil de entender, Kṛṣṇa volta a falar sobre isso.

Karma está vinculado ao corpo. Fatores necessários para a ação:
1) a base da ação (adhiṣṭhāna): fisica, oral ou mental;
2) vijnanamaya (karta/bhokta/entidade/buddhi/identidade);
3) karaṇa (os instrumentos físicos e a mente);
4) prāṇa;
5) daivam - as forças da natureza: capacidade da mente pensar, do ouvido ouvir.

A ação depende destes fatores anteriores. Além desses fatores, aponta-se ainda o conhecimento dos objectos, o tipo de mente, buddhi e o tipo de força. Assim, karma não pode pertencer a ātman, pois ātman que é livre de guṇas. O ātman não está relacionado com karma, nem com karmaphalam. A ação, enquanto indivíduo vai ser sattva, rajas ou tamas. O eu é somente consciência. Com esse entendimento alcança-se o objetivo maior da vida.

O verso 46 deste capítulo completa o verso 47 do capítulo II: fazendo karma yoga a pessoa capacita-se para alcançar o estado de livre da ação, naiṣkarmya. De seguida, Kṛṣṇa explica que o oferecimento será a execução da ação, fazendo o que deve ser feito - essa pessoa alcança o preenchimento da sua vida, a maturidade emocional, a objetividade. Esta ideia completa a anterior. O yogi é aquele que traz esse conhecimento para a sua vida.

Quinta-feira, 31 de Março de 2011

Bhagavad Gita, Aula 17 resumo - Vaidika, Maia

Duração da aula 1h07m11s; cânticos iniciais.

Os últimos capítulos procuram lançar o entendimento da junção entre o indivíduo com o todo. O indivíduo não é separado do Todo de nenhuma forma. Essencialmente, os dois são a mesma realidade básica que é brahman, o absoluto. Como vimos, as três características básicas, sattva, rajas, tamas, estão presentes no nosso corpo e, ao mesmo tempo, nos objetos, no universo, na criação. A pergunta de Arjuna que inicia o capítulo XVII é um pouco diferente das anteriores, nomeadamente "como devo agir?". Neste momento, a sua preocupação é diferente - Arjuna quer saber o que é śraddhā, a confiança, o acreditar.

Para atingir um objetivo, temos atos para o conseguir. Por exemplo, na tradição védica existe um ritual para dar nome a uma pessoa. Esse ritual tem todo um processo, num templo, com várias etapas para a criança receber o seu nome. Esse nome dá um início e marca um momento. Arjuna diz que existem pessoas que fazem rituais mas não seguem o que as escrituras mandam seguir. Sobre essas pessoas, ele diz que possuem śraddhā, apesar de não seguirem a prescrição da escritura. Arjuna quer saber se essas pessoas são sattva por fazerem rituais, ou, se são tamas por não seguirem a prescrição, ou, se são rajas por terem desejo de alcançar alguma coisa.

Kṛṣṇa explica, como de costume, à sua maneira. Primeiro explica que śraddhā é o acreditar em alguma coisa, a fé, aquilo a que se dá valor. As pessoas agem conforme a sua mente e ela determina o que é importante; assim, é a śraddhā da pessoa e assim é a pessoa. As tendências das pessoas, os seus saṃskāra, são a sua śraddhā.

O tipo de fé que a pessoa tem, independentemente, da sua religião indica a sua śraddhā. Sattva śraddhā é uma fé nos deuses, a devas, a īśvara. Rajas śraddhā é uma fé na satisfação dos seus desejos. Tamas śraddhā é uma fé ligada a fantasmas, desencarnados, para ajuda. O mesmo para a alimentação, tapas e dānam (sattva, rajas ou tamas). Essas quatro ações são escolhidas conforme a sua crença. Pelas ações determina-se a predominância no tipo de pessoa que se é.

No verso 8, Kṛṣṇa fala sobre o alimento sattva e a professora explica a relação entre alimento, yoga e āyurveda. Especificamente, falando sobre alho e cebola são alimentos um cheiro muito forte, e, em excesso, trazem apego (veja-se a forma como o alho cola nos próprios dedos ao ser cortado). Todos os sabores fortes alimentam rajas. A comida sattva é aquele que mantêm a vida, ajuda à clareza na mente (ao contrário do alimento tamas), mantém a força, saúde e bem estar, é suculento, tem um pouco de óleo, tem frescura, é agradável e perfumado.

Se o prato tem todos os sabores cria equilíbrio e traz mais satisfação: doce (como o arroz), salgado, picante (pimenta ou gengibre que mantêm o fogo digestivo e ajudam à digestão), azedo/amargo (iogurte), adstringente (feijão).

A comida rajas é a comida que é muito: quente ou seca ou amarga, picante, salgada... é a comida que se come chorando, ou seja,

Tamas é a comida meio cozinhada ou crua. A comida crua cria Vata no corpo, ou seja, agitação no corpo e mente. A comida muito seca, como o queijo gorgonzola, é tamas. A comida que não alimenta, que não nutre, é tamas. As sobras são tamas. A comida tamas cria tamas [no corpo, na mente].

Sobre o oferecimento, Kṛṣṇa diz que um ritual, ou oração, é sattva yajña e que deve ser feito de uma maneira própria. Deverá ter uma sequência apropriada, adequada, harmoniosa. O ritual é feito sem se pensar no resultado, mas, feito da forma correta com uma mente discriminativa e tranquila. Sobre o rajas yajña Kṛṣṇa diz que é feito devido a querer um resultado. Sobre o tamas yajña Kṛṣṇa diz que é o ritual feito sem se preocupar com prescrição.

Sobre tapas, disciplina, Kṛṣṇa fala sobre a disciplina física, oral e mental. A disciplina física como, pūjā, śaucam, ārjavam (alinhamento), brahmacarya (consciência sobre os impulsos), ahiṃsā (não violência). A disciplina da fala é a atenção ao que é falado, as palavras escolhidas não devem causar reação nas pessoas, devem ser verdadeiras e, ao mesmo tempo, devem ser agradáveis e benéficas, a repetição (japa) e o silêncio (maunam) são exemplos disso. A disciplina mental é o exercício de um pensar claramente, estar tranquilo e atento aos pensamentos, organizar os pensamentos de uma forma agradável (não nutrir pensamentos desagradáveis).

Sobre a disciplina que é sattva, Kṛṣṇa diz que é aquela que deve ser feita. A disciplina que é feita para receber elogio é rajas. A disciplina que é feita para trazer sofrimento ao corpo é rajas.

Sobre dānam, doação, Kṛṣṇa diz que sattva dānam é aquela que acontece quando deve acontecer, quando deve ser dada se a pessoa ou entidade precisar, e que é dada no momento, lugar e à pessoa certa. Tradicionalmente, no momento da entrega diz-se "dātam, dātam, dātam mayā", no sentido "eu dei, agora é seu". A doação rajas acontece devido à espera de um retorno, um resultado (como reconhecimento) e que é dado com relutância. Sobre a doação tamas Kṛṣṇa fala que é uma doação que não tem nada haver com quem recebe, a hora, lugar, recipiente ou forma (com desprezo ou desconsideração) é imprópria.

“Om tat sat” tem a capacidade de neutralizar qualquer erro, obstáculo na execução da ação. Om tat sat são palavras de īśvara, "om" significa tudo o universo físico e causal, o absoluto, pela sua pronuncia está associado todo o conhecimento dos vedas. Tat refere-se ao todo e sat aquilo que é real. O mais importante em qualquer oferecimento é śraddhā, em todas as áreas que haja uma mente mais calma e clareza pois desejo autoconhecimento, isso é sattva.

O que não tem śraddhā é tamas, com o desejo é rajas. Com o objetivo maior, do autoconhecimento é sattva.