terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Tattvabodhaḥ, aula 4, resumo - Vaidika

Duração da aula 1h19m57s; cânticos iniciais.

Estar livre de resistência interna é śraddhā, apenas se escuta [o mestre] e, deste modo, escutar torna-se uma meditação. Através do processo de escuta devido a śraddhā o entendimento torna-se claro. Na Gītā, Krishna fala “śraddhāvān labhate jñānam” - a pessoa que tem confiança adquire conhecimento (B.G. 4-39).

Samādhāna – a capacidade da mente em estar concentrada numa única coisa – cittaikāgratā, num objeto, numa coisa, sem se dispersar. Em Vedānta, a mente é chamada de vṛtti pravāha, pensamento, ondulação ou fluxo da mente.

Entre as quatro qualificações mumukṣutvam significa o desejo que haja libertação para mim. A ideia da pessoa que tem o cabelo a arder e só tem urgência em encontrar água para molhar o cabelo. Com essa urgência eu quero entender ātman, o absoluto, a minha natureza.

Quem tem as quatro qualificações está preparado para o estudo de Vedānta e de Tattvabodha.

De seguida, no livro, o aluno quer saber mais sobre a verdade. O professor diz que satyam é “aquilo que existe sempre: no passado, presente, futuro, ou seja, é trikālābādhitam. Esse satyam é ātman.

Vedānta é um meio de conhecimento, informa-nos algo. Os olhos, que nos dão informações visuais, são um meio de conhecimento e o seu âmbito é ver formas, cores, etc. O nariz é um outro meio de conhecimento, de aromas e cheiros, e é a autoridade para esse conhecimento, logo, não pode ser questionado por outro meio de conhecimento, o olho, por exemplo.

O Veda tem como tema o absoluto, Brahman. O objetivo dessas palavras é apontar-nos Brahman. Quando o professor diz satyam aponta para Brahman, que é [o] eterno. Em Vedānta tem que haver lógica e o conhecimento não pode ser contrário à nossa experiência. Vedānta e Tattvaboddha vai falar de ātman, que é absoluto, livre de limitação e isso não é contrário à lógica nem à experiência.

O texto diz que, ao contrário de tudo o que conhecemos, há uma coisa que existe sempre e esse é ātman, tudo o que for diferente de ātman é mithyā, aparente. Ser aparente, mithyā, é aquilo que parecendo uma coisa, depois de analisado, entende-se de outra forma. O exemplo clássico dos Vedas é o pote de barro, ghaṭa. Analisando o pote, vê-se que apenas existe barro, mesmo que seja desfeito em pedaços. Então, é pote ou é barro? Depende. Depende da maneira de olhar. Isso é mithyā. Aquilo que não pode ser definido completamente. O mesmo com o livro que “desaparece” e dá lugar à página, que “se torna” papel, e, papel “torna-se” árvore. Mithyā não aquilo que é falso, mas aparente. Pelo contrário, satyam é aquilo que não muda. Qual é a verdade do oceano e da onda limitada que morre na praia? Água! Água é a verdade de ambos.

Tudo aquilo com o qual nos identificamos tem uma duração limitada, o que não muda e sou essencialmente, verdadeiramente, o meu satyam, a minha verdadeira natureza, tat, é que eu tenho de conhecer. Assim que descubro o meu real o meu relacionamento com o aparente muda. Na ilusão de uma água projetada no asfalto pelo calor eu ajo naturalmente sabendo que é apenas uma miragem, como num show de ilusionismo – assim, eu posso lidar com aquilo sabendo que terá uma duração limitada e que se irá transformar. Desta forma, muda a atitude do sábio, o seu ponto do referencia em relação a si mesmo é o absoluto; joga-se o jogo [da vida] mas vê-se o absoluto (como um ator no teatro). Descobrir mithyā e satyam é o jogo.

Então o que é ātman?, pergunta o aluno, mais à frente. Aquilo que é alcançado por todos, aquilo que é a verdade de todo e qualquer ser, ātman é “Eu”, a Consciência. O conceito de Eu está sempre presente, no entanto, a gente não sabe nada sobre Eu, porque muda constantemente [muda o corpo, muda a mente]. A primeira coisa é entender, “quem sou eu?”. Temos várias respostas que dependem do momento, porque não existe um conhecimento claro, mas conhecimentos contrários, opostos, daí a confusão.

O ātman é muito diferente daquilo que, normalmente, se acha que é. É diferente de sthūla śarīra, o corpo grosso (peso, sexo, idade, altura, etc). Às vezes, referimo-nos ao corpo como “este corpo”, (na frase: “quero mudar este corpo”, por exemplo) portanto, há uma experiência de ser diferente “do corpo”, “desse corpo”. Diferente também da energia que alimenta o corpo, sūkṣma, na forma da respiração, o prāṇa. Diferente do pensamento e do corpo causal, da semente que tem as tendências para um novo nascimento que se manifesta numa dada circunstância. Tampouco nenhum estado de experiência como acordado, sonhando ou dormindo profundamente, mas, sākṣī, testemunha/presença dos três estados de experiência. Está presente no acordado, naquele que dorme, naquele que dorme profundamente. Como a testemunha que vê um acidente de carro, não estando envolvida, ela viu tudo.

Primeiro o professor, no livro, fala em termos de negação, negando tudo aquilo que o aluno pensa que é mas não é e, depois, diz que o Eu é sat-cit-ānanda, existência, consciência, plenitude.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Tattvabodhaḥ, aula 3, resumo - Vaidika

Duração da aula 1h14m56s; cânticos iniciais.

A professora Gloria começa com uma revisão da matéria dada nas aulas anteriores.

A professor conta uma história curiosa, mas real, sobre um alemão que não deitava nada fora e que ia guardando tudo no seu apartamento, até encher todo o espaço. Quando conheceu a sua futura esposa, ia já no quarto apartamento totalmente lotado. Com a ajuda dela, conseguiu esvaziar um após o outro, até chegar no primeiro. É uma questão de trabalhar o desapego – vairāgyam.

Na Gītā, Arjuna tem Kṛṣṇa como o condutor do seu carro, com um chicote e segura os cinco cavalos brancos. Os cavalos são um símbolo dos cinco órgãos de percepção. Kṛṣṇa simboliza a mente que conduz os cinco cavalos. A mente tem o chicote que dá direção aos cavalos, guiados o tempo todo pela estrada, pelo caminho (patha – em inglês “path”) do autoconhecimento, conhecendo aquele que é livre de limitação – Brahman.

É necessário um comando sobre a mente para lhe dar uma direção. Essa capacidade é denominada “śama”. Ter um conhecimento profundo da mente é “śama”.

A professora conta a história da vaca que é levada a passear e que, de alguma maneira, consegue fugir àquele que a passeia. Conseguir apanhar a vaca pela cauda, e, depois ir voltando a segurar na trela ao pescoço, é chamado de “dama”. Conseguir segurar a nível do corpo, mesmo depois de ter pensado, é “dama”.

A terceira qualificação é uparama, uma mente que tenha uma certa organização preparada para compreender aquele que é muito subtil, o Eu, Brahman. Arjuna diz a Kṛṣṇa que a sua mente é muito mais difícil de segurar do que a mente.

A professora conta a história da flor e do choro para demonstrar que a mente que funciona por associação foge constantemente. Assim, torna-se necessário dar uma direção a ela, a algo que é a base, a verdade de todo o universo. É necessário ver mais além, por isso, o sábio é chamado de poeta (kavi), pois tem a capacidade de ver algo a mais nos objetos, uma visão mais profunda.

Uparama é, também, ter a capacidade de saber qual o seu papel, a sua função – sendo a maior de todas o autoconhecimento. Cumprir o seu dever, o que tem de ser feito em sociedade mas também a renúncia, saṁnyāsa, para dedicar-se completamente ao estudo, ao autoconhecimento - o objetivo mais alto do ser humano: quem sou eu? O que vim fazer a este mundo?

Titikṣā, a capacidade de aguentar, tolerar os pares de opostos (dvanda), frio/calor, alegria/tristeza, etc, sem reclamar, com uma mente satisfeita – tolerar o mundo e as pessoas do jeito que são.

Śrāddha é a confiança, uma qualificação necessária ao estudo. Confiança nos textos, no ensinamento, na pessoa que ensina (guru - “gu” significa escuridão/ignorância, “ru” é a eliminação da escuridão”). No dia dos mestre, Guru Pūrṇimā, na primeira lua cheia de Julho, todos os mestres são reverenciados.

No estudo de Vedānta é passada uma visão, esse é o poder de ensinar, levar outra pessoa a compreender da mesma maneira que se aprendeu. Isso não acontece com o estudo apenas através dos livros. Como é muito difícil confiar, śrāddha é o processo de descobrir a confiança na pessoa que transmite o ensinamento.

sábado, 14 de julho de 2012

Tattvabodhaḥ, aula 2, resumo - Vaidika

Duração da aula 1h08m41s; cânticos iniciais.

A aula começa com o canto do primeiro verso do livro, a oração, que introduz o livro. A professora Gloria explica que este verso é uma saudação ao mestre que escreveu o livro e a apresentação dos quatro pontos básicos de um livro: o adhikārī, a pessoa a quem se dirige (“mumukṣunam” - as pessoas que desejam a liberação do sentimento de limitação), o tema (viṣaya – “tattvabodhaḥ”, conhecimento da verdade, do real, livre da limitação) e phala, o fruto, o resultado final – “hita”, o bem para que se esteja bem consigo mesmo, feliz, pleno, a sensação de ser suficiente em si mesmo e a forma de chegar a isso, também a conexão entre o indivíduo e o livro, saṃbandha, de que forma chego na meta - através do conhecimento fornecido pelo livro.

E, continua, no segundo verso, “nós falaremos agora desse método de discriminação daquilo que é real”, a verdade desse universo, do criador. A discriminação entre o que perece e o imperecível. Existe um imperecível? E, existindo, o que é esse imperecível? Que seja uma forma de levar a mokṣa, a libertação.

Essa libertação é levada ao adhikārī, a pessoa qualificada. A pessoa qualificada é aquela que tem sādhanacatuṣṭaya: quatro qualificações. Essas quatro qualificações são:
1) a discriminação entre aquilo que é eterno e o que não eterno;
2) desapego;
3) grupo de seis qualidades da mente começando por uma mente objetiva, em paz e recetiva (não-reativa), tranquila, organizada e disciplinada;
4) o desejo pela libertação, um desejo maior pelo autoconhecimento.

O eterno é um, livre de limitação, não pode ser dois, senão é limitado, e o nome desse é brahman, “o maior de tudo”. Tudo o resto, que é diferente desse, é então não-eterno, perecível, limitado em termos de tempo (kāla), espaço (deśa) e forma (vastu). Essa é a discriminação entre o eterno e não-eterno.

Desapego, virāga/vairāgya, é a ausência do desejo por coisas (objetos, relacionamentos, etc) deste ou de outro mundo (svarga loka) e, também, da ilusão que essas coisas vão trazer a felicidade permanente.

A riqueza de qualificações da mente é: śama, dama, uparama, titikṣā, śraddhā e samādhāna.

Śama é “manonigraha”, um comando sobre a mente, a capacidade de não deixar que a mente se torne emocional demais, ou surjam demasiados desejos, gostos e aversões. E, ainda, conhecer bem a mente.

Dama é a capacidade de segurar “o fio de todo o corpo”. Depois de perder o controlo da mente, ter a capacidade de segurar a palavra, o gesto, a ação (que poderia agravar ainda mais a situação).

A professora conta a história e a utilidade do caderninho para anotar as situações que nos irritam e que, com o tempo, nos leva a conhecermo-nos melhor.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Tattvabodhaḥ, aula 1, resumo - Vaidika

Duração da aula 59m57s; cânticos iniciais.

A professora Gloria começa por falar dos quatro puruṣārthas: dharma (dever, meios adequados), artha (segurança), kāma (prazer) e mokṣa (libertação do interesse dos três primeiros, da insatisfação ou da sensação de vazio).

Depois, define mokṣa como sendo a busca por uma estado de estar sempre bem, pleno e seguro. Como o caminho para me levar àquilo que eu quero.

No Sânscrito, temos as palavras “aprāpta” (não ter), “prāpti” (ter) e “karma” (ação). Com a ação adequada eu aproximo-me daquilo que eu desejo e não possuo. O Absoluto não pode ser produzido. O Absoluto “É”, o tempo todo. Como alcançar o que já é existente e porquê desejar aquilo que já existe?

Para responder a essa pergunta, a Gloria conta a história da avozinha que esquece os óculos na cabeça e sai em busca de procurar os óculos onde eles não estão, mas em lugares que ela conhece.

Em seguida, conta também a história da senhora que estava a costurar e perde a agulha. Não sabendo onde a agulha está, procura por ela em lugares onde há mais luz, muito embora a tenha perdido numa outra zona menos luminosa. Assim somos nós, à procura da felicidade nos objetos que nos saltam à vista. Devido a quê? Devido à ignorância. Quando a causa é ignorância, a solução só pode ser conhecimento.

Quando a avozinha fica a saber, por alguém, que os óculos estão na cabeça a sua busca termina – esse é o momento da iluminação, do reconhecimento (o fim da angústia e sofrimento).

Alaṁbuddhi (atitude de suficiência) é mokṣa, não querer mais nada, é o parar de buscar e encontrar uma felicidade, um preenchimento. Não é o conquistar alguma coisa, mas descobrir um preenchimento em si mesmo e, assim, tudo o resto é extra – não é preciso limitar-se e privar-se de nada, mas sim viver em plenitude. A vida passa a ter uma direção, esse conhecimento – o conhecimento do ser que sou, em mim mesmo, completo.

Não se fala aqui de entender a pessoa, a personalidade, o histórico, mas conhecer o que eu sou, fundamentalmente, imutável, a presença constante, esse ser livre de limitação. Descobrindo esse, tudo o mais se torna resolvido. O conhecimento é como uma luz que ilumina.

A professora fala agora sobre o meio de conhecimento: vendo uma parte conclui-se sobre o resto – isso é lógica. Ver um estado e depois ver outro e, a seguir, conclui-se sobre outra coisa – inferência. Qual o meio para conhecer o absoluto? Tem um meio, as palavras, que apontam para o conhecimento de si-mesmo. Tattvabodha (e Advaita Vedānta) é um estudo feito através das palavras. As palavras que falam de objetos dão uma visão parcial. O objeto que estudamos é “o Absoluto que sou eu mesmo”. Quando se ouve falar do absoluto que sou eu mesmo tudo se torna claro, porque “eu sou o absoluto”.

A Gloria conta a história dos dez meninos que vão tomar um banho de rio. Pede-se ao mais velho que tome conta de todos. Quando, finalmente, decidem voltar o mais velho conta apenas nove meninos. O menino mais velho começa a ficar desesperado, conta várias vezes os meninos, uma e outra vez, sempre com o mesmo resultado. Próximo a ele um ancião observa tranquilamente. Assim, propõe-se a ajudar o rapaz dizendo-lhe: “tattvamasi” - tu és aquilo que buscas, não é preciso produzir um outro, "tu (já) És”.

Inicialmente, é necessário confiar naquele que fala e ensina. O objetivo de Vedānta é lançar luz sobre eu mesmo e, como um espelho, proporcionar um conhecimento mais profundo de mim.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Novo Grupo de Estudos - Gloria Arieira

A 5 de julho, quinta feira, às 21h30, inicia no Centro VAIDIKA, um novo Grupo de Estudos "Gita Vicara" com os CD's gravados das aulas da professora Gloria Arieira, diretora presidente do Vidya Mandir.

Este grupo de estudos foi criado para dar oportunidade a pessoas que moram longe do Vidya Mandir (no Rio de Janeiro, Brasil) de escutar o ensinamento transmitido pela professora Glória Arieira, que aprendeu com seu mestre Swami Dayananda Saraswati, na mesma linha de estudo do mestre Sri Shankara. Tem como objetivo promover o encontro daqueles que estão interessados em estudar e compreender Advaita Vedanta, o conhecimento do Ser Ilimitado que é a natureza do indivíduo e do Criador da criação.

Serão estudados os seguintes textos: Tattvabodhah, Upadesha-saram e Bhagavadgita.

Vedanta
É o ramo de conhecimento contido no final dos Vedas, as escrituras sagradas da Índia. Vedanta é uma palavra em Sânscrito, formada por dois termos, "Veda" e "antah". A palavra Veda deriva da raíz vid, que significa saber. Veda portanto significa conhecimento; antah significa porção final. Vedanta, ou Jñana Yoga, é a compreensão de si mesmo como o todo, adequado e ilimitado. Na visão do Vedanta, o Ser, a real natureza do indivíduo, é totalmente aceitável porque é, basicamente, aquilo que desejamos ser - o todo. Este ensinamento é transmitido através de uma pedagogia altamente evoluída pelo professor a um estudante dedicado.

Local dos encontros
VAIDIKA - Rua 9 de Abril, 282, Pedrouços, Maia (à rotunda da Areosa) [Mapa]

Calendário
Os encontros semanais terminam a 4 de julho 2013. O Grupo de Estudos de Vedanta reúne-se, às 5as feiras pelas 21h30. A coordenação está a cargo de Gustavo Cunha. Todos são bem-vindos ao estudo. Mais informações através do email: om@yogavaidika.com.

Material
Traga papel e caneta para anotações.

Investimento
Por donativo. Pode deixar na caixinha com a imagem de Sarasvatī.

Inscrição
Faça a sua inscrição o quanto antes por email om@yogavaidika.com ou tlm. 912.900.200.

Professora
Glória Arieira é a Diretora Presidente do Vidya Mandir. Em janeiro de 1974 foi para a Índia estudar com Swami Dayananda, que tornou-se seu mestre. Com ele estudou até julho de 1978, retornando então ao Brasil. Além de permanecer no Ashram Sandeepani Sadhanalaya, um local de estudo e vivência com o mestre, em Mumbai, também estudou em outros ashrams em Uttarkashi e Rishikesh, norte da Índia. Viajou também para lugares nas várias regiões da Índia, para participar de cursos, palestras e visitas a lugares sagrados, como os templos de Tamil Nadu e Kerala, conhecendo melhor a tradição cultural e religiosa dos Vedas. Desde seu retorno, vem ensinando Vedanta e Sânscrito no Rio de Janeiro e em outras cidades do Brasil e também em Buenos Aires, Argentina. Dedica-se também ao trabalho de tradução para o Português dos textos em Sânscrito, como a Bhagavadgita, Upanishads e vários outros. É responsável pela publicação em português dos livros de Swami Dayananda, editados pela Vidyamandir Editorial, e de dois outros livros: Orações Milenares e Puja - a realização de um ritual védico.

Líder do grupo
Gustavo Cunha ensina Yoga e estuda Sânscrito e Vedānta. Nasceu no Porto, há 34 anos, e desde cedo teve interesse na disciplina da mente. Encontrou esse caminho primeiro nas Artes Marciais e depois no Yoga, em 2002, através da professora Edna Mendes. Estuda regularmente os ensinamentos de Pūjya Śri Svāmi Dayānanda Sarasvatī e de outros mestres da mesma tradição como Svāmi Vāgīśānanda, Svāmi Viditātmānanda e Svāmi Paramārthānanda. Para além disso, recebe ensinamento dos professores Miguel Homem, Pedro Kupfer, Marcelo Cruz, Glória Arieira e Cláudia Villadelprat. Traduziu "Gheraṇḍa Saṁhitā", um manual de Haṭha Yoga do séc. XVII e numerosos artigos de Hinduism Today, David Frawley, The Hindu American Foundation, Enlightenment Magazine, The New Sun, Hindu Voice Uk, entre outros. Conheceu pessoalmente Svāmi Dayānanda em 2008, num intensivo de estudo, no Ārṣa Vidyā Gurukulam em Anaikatti, Índia, a quem pediu permissão para ser seu discípulo.

Mais informações
www.yogavaidika.com
www.vidyamandir.org.br
www.gitavicara.blogspot.pt

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Dakṣiṇāmūrti Stotram, aula 4, resumo - Vaidika

Duração da aula 45m05s; cânticos iniciais.

Dakṣiṇāmūrti Stotram, também chamado de Dakṣiṇāmūrti Aṣṭakam, é um texto que tem o peso de Upaniṣad, ou Brahma Sūtra. Na realidade, antes de Brahma Sūtra, geralmente, cantam-se estes versos pois são considerados muito importantes. Também, em homenagem a Śaṅkara canta-se muito esta obra.

No mundo, estabelecem-se vário tipos de relacionamento, como o relacionamento com o corpo – ele é o efeito de alguma coisa (kāryam), ele tem uma causa (kāraṇa), que vai produzir um corpo, uma situação de família, um tipo de mente (o karma de vidas passadas). A todo o momento, vê-se a relação de “causa-efeito” (kāraṇa, kāryam). Nada é isolado. As minhas escolhas irão criar um corpo futuro, em relação a uma coisa ele é causa, e, noutras efeito. Constantemente, as coisas estão misturadas, causa e efeito, isso refere-se a mithyā, aquilo que é aparente, aquilo que não é absoluto, que não é possível determinar.

Uma outra relação é aquela do aluno e do professor. Ninguém é absoluta e constantemente professor. Na frente do seu próprio professor, é-se sempre aluno. Este conhecimento que me fez “grande” deve-se a um professor. Em relação a alguns é-se professor, e, a outros aluno.

As relações não são absolutas mas relativas e em relação a pontos de referência. A consciência é absoluta, tudo o resto é alguma coisa de um ponto de vista, e, outra coisa de outro ponto de vista.

Também através da relação pai e filho: todo o pai foi filho, em algum momento, e em potência uma pessoa poderá ser pai/mãe. No universo nada é absoluto, as coisas existem em relação a pontos de referência e existem sempre que a mente está presente, (acordado ou sonhando). As coisas são produzidas através de māyā, a ilusão, como todos os objetos de ouro são, fundamentalmente, ouro.

A professora Gloria fala detalhadamente sobre as 8 formas de īśvara.

No último verso, é dado o fruto deste estudo (phalam śruti): o conhecimento. Escutando este stava/stuti, refletindo no significado das palavras, meditando/contemplando e cantando estes versos em formato kīrtana cria-se uma relação, um víncul. A repetição no olhar [a forma], cantar e repensar, cria uma relação - vem a descoberta que sou o todo, sarva, do tamanho do universo, o conhecimento que eu sou esse livre de limitação. Essa pessoa ganha o estatuto de īśvaratvam, ganha-se a identidade com īśvara, eu não sou diferente dele, não sou separado dele. O principal fruto é o entendimento dessa não separação com īśvara, ver a realidade que vai além dos meus olhos, a minha natureza fundamental livre de limitação.

O que quero é descobrir a paz, a plenitude, a satisfação dentro de mim.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Dakṣiṇāmūrti Stotram, aula 3, resumo - Vaidika

Duração da aula 45m15s; cânticos iniciais.

Quando se fala de darśana, uma visão/filosofia/interpretação parcial do Veda, sobre a Realidade Última, tattva, a Verdade do universo e mokṣa, a liberação, darśana confere ou discute as definições do Veda. Quando o Veda fala nos rituais, a pessoa é considerada como pessoa (indivíduo) porque brahma não faz ritual; o Veda também tem a visão de algo a mais do relativo e essa visão do absoluto é a visão típica do Veda. Então, se as darśanas dizem algo sobre a Verdade pode haver refutação porque o Veda fala da visão advaita, a “visão maior” - tattvamasi.

Conta-se a historia de Kumarilabata e Śaṅkara para ilustrar a necessidade de conhecer outros pontos de vista para se poder refutar com conhecimento de causa outras visões, como o budismo, acerca da Realidade Última.

No verso 5, Śaṅkara menciona que:
a) para alguns, “o Eu”, a realidade, é o corpo – portanto “aproveite o corpo ao máximo e tenha tantos prazeres quanto possíveis, sem se importar com dharma, já que, quando acabar o corpo acaba tudo!”. Do género: “faça dívidas, já que, depois de morrer você já não paga!”.
b) para outros, mais que o corpo o prāṇa, o prāṇa é o mais importante – ainda assim é materialista (“cuidar ao máximo da saúde, mas, aproveite e divirta-se”);
c) outros dizem que é os sentidos e a mente, “o Eu é a mente” – então torna-se necessário ter uma boa mente.
d) outros diz também: “não, a realidade é calām buddhi, a consciência que está sempre em movimento, a cada momento uma nova consciência”;
e) outros ainda dizem: “Não é isso! Na hora que se está consigo mesmo, em sono profundo, não existe nada, apenas um vazio total, e esse vazio é você, śūnyam.” Referindo-se ao zen budismo, o sujeito quando se dissolve é esse vazio, sem forma, sem nada.

Para Śaṅkara, todos eles estão enganados quanto à realidade, e “são como mulheres”, latu sensu, já que, independentemente de perceberem as explicações não as seguem pois sentem de outra forma, sem lógica. Ou, são como as crianças, sem maturidade, sem sustentarem os seus argumentos. Ou como os cegos, que se fiam somente na experiência e na lógica e não no śastra. Ou como o idiota, que nem vale a pena escutar ou seguir, ou seja, os śūnya vada – raciocinam e argumentam mas concluem que o Eu é um vazio, “como alguém pode dizer que Eu não existo – o Eu é śūnyam”.

“Saudações a esse mestre que destrói todos os grandes erros criados por essa projeção de māyā”. Ela é maravilhosa porque projecta cada coisa diferente para cada pessoa, e, mesmo olhando a mesma coisa vêem coisas diferentes.

Quando existe eclipse, do sol ou da lua, a terra cobre-os parcialmente. Primeiro, a luz que tudo ilumina é o sol e, segundo, ainda se vê uma luz ao seu redor. Embora estejam ocultados há evidências que estejam ali. Neste verso, diz que eles apesar de ocultados têm uma forma de saber que estão ali , ou seja, da mesma forma no sono profundo há uma maneira de saber que “o Eu” está ali, pois, na hora de acordar a pessoa diz: “dormi, mas dormi bem”. Há ausência do objeto mas há a consciência disso. O sol apesar de eclipsado, ocultado, não está ausente. Da mesma maneira, encoberto por essa māyā, no sono profundo, com os sentidos recolhidos quando acorda diz “eu dormi” - essa afirmação demonstra que havia qualquer coisa ali. A memória, “acordado, dormindo, acordado – eu estava acordado, dormi e acordei” é o maior argumento. Na Gītā, Kṛṣṇa diz que é a memória e o esquecimento. O esquecimento também é ótimo e necessário para podermos crescer, lembranças e esquecimentos são uma grande benção.

Fala-se também de vários estados: a infância, a adolescência, a fase adulta e de idoso. Tudo isso é passado por um sujeito que é o mesmo apesar das fases mudar. O conhecimento muda mas “o Eu” continua. Também existe o acordado, o sonhando o dormindo. As várias condições como corpo físico, subtil, causal, constantemente mudando e mutuamente oposto – infância não é adolescência nem estado adulto. Quando uma acontece a outra não acontece, o acordado não é o dormindo. É único e está em constante transformação. Porém, existe um anuvartamānam, uma continuidade – a experiência do constante mutante é uma experiência, mas, apesar disso, existe alguma coisa que continua “anuvartamānam: aham, aham, aham”. O conceito de Eu é Eu de qualquer maneira, “eu na infancia”, “eu na junventude”, “eu na fase adulta”, acrescentando adjetivos, “gordo”, “pequeno”, etc, mas, “só Eu era presença”. Existe uma presença constante apesar das mudanças. O intelecto estava sempre brilhante da mesma maneira, consciente, sempre brilhando. Esse mestre que desdobra, revela o sujeito, “o Eu”, aos seus discípulos, devotos desse conhecimento, é Dakṣiṇāmūrti (os outros professores só abrem a boca). A esse as minhas reverências.