domingo, 20 de novembro de 2011

Dakṣiṇāmūrti Stotram, aula 2, resumo - Vaidika

Duração da aula: 59m33; cânticos iniciais.

A professora fala sobre o livro de Svāmī Tattvavidānanda, “Dakṣiṇāmūrti Stotram,” elogiando-o e aconselhando a sua leitura a quem procura uma análise mais detalhada do texto.

Nas três primeiras linhas o texto fala alguma coisa diferente sobre esse conhecimento e na última sobre Dakṣiṇāmūrti, o mestre. O mestre Dakṣiṇāmūrti que não tem forma específica, que é todas as formas, que está aqui sobre a forma do meu guru mūrti (o meu mestre) é, na verdade, Dakṣiṇāmūrti falando.

Essa criação é uma multiplicidade formas, sons, texturas, cheiros e sabores, todo o universo é muito variado – todo o universo é nāma/rūpa nome e forma. Nome e forma não têm uma existência independente de consciência. O objeto é, a flor é, o livro é – parece existir uma diferença entre os dois mas não existe diferença em termos da existência. Existe uma variedade de coisas quando se foca em rūpa mas a existência não pertence a flor nem a livro – a existência não tem forma específica e não pertence ao objeto, é comum a todo o universo e na ausência do universo a existência é. A existência é comum ao sujeito e ao objecto, a existência é constante. A não-existência não é um vácuo, um vazio, a não existência é. A existência é a verdade do sujeito que pertence mas ao mesmo tempo não pertence ao sujeito está alem do sujeito. É a base do sujeito, a consciência e a existência é um fator constante, satya, real, a única coisa que é sempre. Todos os nomes e formas vão e vêm constantemente.
A professora dá o exemplo do ouro que assume várias formas e nomes, cordão, pingente, brinco colar para mostrar que todo o ouro na verdade não varia, apenas os nomes e formas comparando com a existência e consciência que é constante e a base. Brinco não existe separado de ouro, ouro existe separado de brinco. As formas são projeções e não têm um conteúdo em si mesmo, não têm uma realidade em si mesmo. O poder de māyā é que faz tudo aparecer, como na experiência da cobra e da corda.

A primeira estrutura deśakāla, tempo/espaço, surge para que seja possível a perceção do próprio universo, a sequência do momento presente dá-nos a sensação do minuto, da hora, do dia – são projeção na nossa cabeça – sessenta momentos presentes e dizemos “passou-se um minuto”, “sete dias, uma semana”, reduzido isso tudo resta uma presença sat/cit. Na verdade, o tempo é uma sequência de sat/cit, pontos de referência projetados pela própria mente.
Esse universo é bīja (semente) que se torna uma árvore continuamente, num ciclo não-manifesto/manifesto. A existência em potencial, manifestação e dissolução por māyā. Em análise, tudo é sat/cit. Todo o universo é visto como externo já que a minha referência é o corpo, mas do ponto do visto da consciência tudo isso é interno - īśvara é chamado de “o grande ilusionista” porque faz aparecer esse universo inteiro do seu próprio saṅkalpa, como um grande yogi que tem o poder de criar, projetar, iludir. O material do universo é do próprio īśvara, não vem de forma.

Em seguida a professora faz uma análise detalhada dos versos seguintes.

Imagem retirada de Original Vedic Art

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Dakṣiṇāmūrti Stotram, aula 1, resumo - Vaidika

Duração da aula: 1h17m21s; cânticos iniciais.

Dakṣiṇāmūrti é uma forma de Śiva que invoca a destruição da ignorância e aquisição de conhecimento. Os devotos de Dakṣiṇāmūrti são pessoas que desejam o conhecimento e a capacitação para esse conhecimento.

No norte [da Índia] não existem muitos templos a Dakṣiṇāmūrti porque não é uma forma muito especifica, já que, o povo vai mais atrás das eliminações dos obstáculos na sua vida e a satisfação dos prazeres (desejos).

Aqueles que vão atrás do conhecimento são os devotos de Dakṣiṇāmūrti. No sul, Svāmīji instituiu os templos a Dakṣiṇāmūrti nos āśrams.

Candramauli, discípulo de Svāmīji, encontrou uma pedra parecida com um Śiva Liṅga na beira do Ganges e procurou levá-la para o āśram, mas não consegui levá-la nem com a ajuda de transeuntes. Falou com o Svāmīji e ele consegui levantá-la à primeira tentativa. Assim, fizeram um templo a Śiva com essa pedra em Rishikesh. No início, o templo era pequeno e com o tempo foi aumentando.

Dakṣiṇāmūrti é um texto a Śaṅkara. Na imagem de Dakṣiṇāmūrti vê-se que ele tem dois brincos, o do lado direito é masculino e o do lado esquerdo é feminino, simbolizando puruṣa e prakṛti, ou seja, o aspeto masculino e feminino imbutidos nele. Tem também um ḍamaru simbolizando o espaço, os vedas na mão, uma bandana no cabelo, gaṅgā na água da cabeça, pṛthivī é a própria estrutura da imagem, o sol e a lua – hastamūrti; os cinco elementos mais o sol e a lua, e, mais a pessoa que olha para a imagem (jīva, o indivíduo). Também se pode dizer que os ṛṣi são os jīva.

No seu pé tem apasmāra, um āsura com cara de adulto e forma de bebé (“the child within”) – ele é a ignorância, a pessoa que não amadureceu – um bébé no corpo de adulto, dependente, com medo. Dakṣiṇāmūrti não está a destruir apasmāra, mas a controlá-lo. A ignorância é māyā e Dakṣiṇāmūrti não está a deixá-la manifestar-se demais.

Nandī está junto a Dakṣiṇāmūrti, representando o discípulo, o dharma e a alegria do conhecimento, através de Nandī se vê Śiva - que não é diferente de mim.

Dakṣiṇā + mūrti – aquele cuja forma está virada para o Sul. Dakṣiṇā quer dizer o lado direito, na Índia a referência é o Este daí que a frente é Leste, as costas Oeste, o lado direito o Sul, então vāma é o esquerdo que é o Norte. Então Dakṣiṇāmūrti está virado para o Sul, o Norte é o conhecimento, o ponto de atração, o Leste também (o nascer do Sol, o conhecimento) mas Dakṣiṇāmūrti sempre olha o Sul, pois ele está além da morte porque ele é além do tempo. Ganesha não pode olhar para o Sul daí que ele esteja a olhar para o leste. Ou Dakṣiṇ e amūrti, ou seja, não tem forma especifica e é dakṣā aquele que possui toda a a capacidade de manter, destruir.

Em seguida, a professora faz a análise verso-a-verso até ao verso 5.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Bhagavad Gita, Aula 19 resumo - Vaidika, Maia

Duração da aula 50m03s; cânticos iniciais e invocação à Gītā.

Na primeira parte do capítulo, Arjuna quis saber a diferença entre tyāga (renúncia na ação) e sannyasa (renúncia da ação), e, yoga (moderação). O conhecimento do Eu que nada faz (ātman) é o conhecimento de naiṣkarmya siddhi.

No verso 46, Kṛṣṇa volta à atitude de karma yoga. Para obter o conhecimento do Eu é necessária a exposição ao ensinamento (escutar), refletir e contemplar sobre o que foi escutado e, ao mesmo tempo, trazer īśvara para a vida para tirar a força do ego (ahaṅkāra). Isso acontece ao longo do tempo.

Kṛṣṇa fala a Arjuna para fazer o seu papel, mesmo que pareça destituído de qualidades, e, deixar os outros fazerem os seus papéis.

A partir do verso 50, Kṛṣṇa faz um resumo do ensinamento, nomeadamente, como tranquilizar a mente e conhecer o absoluto (karma yoga e jñānam). No verso 63, Kṛṣṇa diz a Arjuna que o maior segredo de todos é a entrega a um guru que possa ensinar, caso contrário, o conhecimento não surge e mantêm-se confuso, não faz sentido e não é possível usufruir dele. Também é o maior segredo de todos porque esse conhecimento está escondido dentro de cada um, em si-mesmo - que Eu sou o Todo, já completo, ilimitado.

No verso 66 termina todo o ensinamento. Esse verso é cantado quando se finaliza o estudo, que reconhece que eu já sou a Consciência que nada faz, ātman, e que em mim busco refúgio. Esse conhecimento traz a maturidade da mente e conduz conhecimento. Kṛṣṇa fala "não se entregue ao sofrimento", o sofrimento/ilusão elimina-se com a clareza do autoconhecimento.

Nos 12 versos seguintes, Kṛṣṇa refere que esse ensinamento deve ser ensinado àquela pessoa que o deseja: "Onde existir uma pessoa que deseje conhecer este ensinamento (um Arjuna) e uma pessoa que o ensine (Kṛṣṇa), aí estarei Eu". Uma condição deve estar presente também, a pessoa que deseja conhecer deve estar livre de inveja, isto é, com uma mente objetiva. Arjuna diz, finalmente, "a ilusão foi-se!"

A professora Glória, refere que é importante dar a oportunidade a quem escuta pronunciar-se se entendeu ou se ainda tem dúvidas.

Arjuna diz, então, que está livre de dúvida e que agirá de acordo com o ensinamento.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Bhagavad Gita, Aula 18 resumo - Vaidika, Maia

Duração da aula 1h09m58s; cânticos iniciais.

O capítulo XVIII é um resumo de toda a Gītā (a guerra dura 18 dias e a Gītā tem 18 capítulos).

No início, Arjuna pergunta a Kṛṣṇa a diferença entre tyāga e sannyāsa. Kṛṣṇa explica que tyāga está relacionado com karma yoga e sannyāsa com a busca de conhecimento. Neste capítulo, Kṛṣṇa faz um resumo do ensinamento da Gītā e, no final (este capítulo é longo - tem 78 versos), Arjuna entende finalmente a situação.

Kṛṣṇa explica que tyāga é em relação aos frutos da ação. A capacidade de receber o que vem sem reação é chamado de tyāga - atitude de prasāda. Sannyāsa é definido como a renúncia de alguns tipos de ação

A professora Glória fala sobre varnas, āśramas e sobre os diferente tipos de sannyāsa falados no capítulo VI: āpat, vividiṣā e vidvat sannyāsa. A renúncia é uma maturidade, uma apreciação de si mesmo. Kṛṣṇa refere que mesmo abandonando a ação algumas coisas devem ser feitas:
1) yajña - relação com o Todo, quer seja oração ou ritual;
2) dānam - capacidade de doar, o necessário, na hora certa, da maneira certa, nem que seja apenas tempo para escutar alguém;
3) tapas - disciplina, segurar os sentidos que querem "correr" de acordo com os desejos e a mente.

Kṛṣṇa fala sobre a ação do verso 12 ao 45 (quase um capitulo independente). Ele procura tornar claro a renúncia da ação, como já tinha sido falado no capítulo III - estar livre da ação é saber que ātman, o eu, nada faz. Como esta matéria é difícil de entender, Kṛṣṇa volta a falar sobre isso.

Karma está vinculado ao corpo. Fatores necessários para a ação:
1) a base da ação (adhiṣṭhāna): fisica, oral ou mental;
2) vijnanamaya (karta/bhokta/entidade/buddhi/identidade);
3) karaṇa (os instrumentos físicos e a mente);
4) prāṇa;
5) daivam - as forças da natureza: capacidade da mente pensar, do ouvido ouvir.

A ação depende destes fatores anteriores. Além desses fatores, aponta-se ainda o conhecimento dos objectos, o tipo de mente, buddhi e o tipo de força. Assim, karma não pode pertencer a ātman, pois ātman que é livre de guṇas. O ātman não está relacionado com karma, nem com karmaphalam. A ação, enquanto indivíduo vai ser sattva, rajas ou tamas. O eu é somente consciência. Com esse entendimento alcança-se o objetivo maior da vida.

O verso 46 deste capítulo completa o verso 47 do capítulo II: fazendo karma yoga a pessoa capacita-se para alcançar o estado de livre da ação, naiṣkarmya. De seguida, Kṛṣṇa explica que o oferecimento será a execução da ação, fazendo o que deve ser feito - essa pessoa alcança o preenchimento da sua vida, a maturidade emocional, a objetividade. Esta ideia completa a anterior. O yogi é aquele que traz esse conhecimento para a sua vida.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Bhagavad Gita, Aula 17 resumo - Vaidika, Maia

Duração da aula 1h07m11s; cânticos iniciais.

Os últimos capítulos procuram lançar o entendimento da junção entre o indivíduo com o todo. O indivíduo não é separado do Todo de nenhuma forma. Essencialmente, os dois são a mesma realidade básica que é brahman, o absoluto. Como vimos, as três características básicas, sattva, rajas, tamas, estão presentes no nosso corpo e, ao mesmo tempo, nos objetos, no universo, na criação. A pergunta de Arjuna que inicia o capítulo XVII é um pouco diferente das anteriores, nomeadamente "como devo agir?". Neste momento, a sua preocupação é diferente - Arjuna quer saber o que é śraddhā, a confiança, o acreditar.

Para atingir um objetivo, temos atos para o conseguir. Por exemplo, na tradição védica existe um ritual para dar nome a uma pessoa. Esse ritual tem todo um processo, num templo, com várias etapas para a criança receber o seu nome. Esse nome dá um início e marca um momento. Arjuna diz que existem pessoas que fazem rituais mas não seguem o que as escrituras mandam seguir. Sobre essas pessoas, ele diz que possuem śraddhā, apesar de não seguirem a prescrição da escritura. Arjuna quer saber se essas pessoas são sattva por fazerem rituais, ou, se são tamas por não seguirem a prescrição, ou, se são rajas por terem desejo de alcançar alguma coisa.

Kṛṣṇa explica, como de costume, à sua maneira. Primeiro explica que śraddhā é o acreditar em alguma coisa, a fé, aquilo a que se dá valor. As pessoas agem conforme a sua mente e ela determina o que é importante; assim, é a śraddhā da pessoa e assim é a pessoa. As tendências das pessoas, os seus saṃskāra, são a sua śraddhā.

O tipo de fé que a pessoa tem, independentemente, da sua religião indica a sua śraddhā. Sattva śraddhā é uma fé nos deuses, a devas, a īśvara. Rajas śraddhā é uma fé na satisfação dos seus desejos. Tamas śraddhā é uma fé ligada a fantasmas, desencarnados, para ajuda. O mesmo para a alimentação, tapas e dānam (sattva, rajas ou tamas). Essas quatro ações são escolhidas conforme a sua crença. Pelas ações determina-se a predominância no tipo de pessoa que se é.

No verso 8, Kṛṣṇa fala sobre o alimento sattva e a professora explica a relação entre alimento, yoga e āyurveda. Especificamente, falando sobre alho e cebola são alimentos um cheiro muito forte, e, em excesso, trazem apego (veja-se a forma como o alho cola nos próprios dedos ao ser cortado). Todos os sabores fortes alimentam rajas. A comida sattva é aquele que mantêm a vida, ajuda à clareza na mente (ao contrário do alimento tamas), mantém a força, saúde e bem estar, é suculento, tem um pouco de óleo, tem frescura, é agradável e perfumado.

Se o prato tem todos os sabores cria equilíbrio e traz mais satisfação: doce (como o arroz), salgado, picante (pimenta ou gengibre que mantêm o fogo digestivo e ajudam à digestão), azedo/amargo (iogurte), adstringente (feijão).

A comida rajas é a comida que é muito: quente ou seca ou amarga, picante, salgada... é a comida que se come chorando, ou seja,

Tamas é a comida meio cozinhada ou crua. A comida crua cria Vata no corpo, ou seja, agitação no corpo e mente. A comida muito seca, como o queijo gorgonzola, é tamas. A comida que não alimenta, que não nutre, é tamas. As sobras são tamas. A comida tamas cria tamas [no corpo, na mente].

Sobre o oferecimento, Kṛṣṇa diz que um ritual, ou oração, é sattva yajña e que deve ser feito de uma maneira própria. Deverá ter uma sequência apropriada, adequada, harmoniosa. O ritual é feito sem se pensar no resultado, mas, feito da forma correta com uma mente discriminativa e tranquila. Sobre o rajas yajña Kṛṣṇa diz que é feito devido a querer um resultado. Sobre o tamas yajña Kṛṣṇa diz que é o ritual feito sem se preocupar com prescrição.

Sobre tapas, disciplina, Kṛṣṇa fala sobre a disciplina física, oral e mental. A disciplina física como, pūjā, śaucam, ārjavam (alinhamento), brahmacarya (consciência sobre os impulsos), ahiṃsā (não violência). A disciplina da fala é a atenção ao que é falado, as palavras escolhidas não devem causar reação nas pessoas, devem ser verdadeiras e, ao mesmo tempo, devem ser agradáveis e benéficas, a repetição (japa) e o silêncio (maunam) são exemplos disso. A disciplina mental é o exercício de um pensar claramente, estar tranquilo e atento aos pensamentos, organizar os pensamentos de uma forma agradável (não nutrir pensamentos desagradáveis).

Sobre a disciplina que é sattva, Kṛṣṇa diz que é aquela que deve ser feita. A disciplina que é feita para receber elogio é rajas. A disciplina que é feita para trazer sofrimento ao corpo é rajas.

Sobre dānam, doação, Kṛṣṇa diz que sattva dānam é aquela que acontece quando deve acontecer, quando deve ser dada se a pessoa ou entidade precisar, e que é dada no momento, lugar e à pessoa certa. Tradicionalmente, no momento da entrega diz-se "dātam, dātam, dātam mayā", no sentido "eu dei, agora é seu". A doação rajas acontece devido à espera de um retorno, um resultado (como reconhecimento) e que é dado com relutância. Sobre a doação tamas Kṛṣṇa fala que é uma doação que não tem nada haver com quem recebe, a hora, lugar, recipiente ou forma (com desprezo ou desconsideração) é imprópria.

“Om tat sat” tem a capacidade de neutralizar qualquer erro, obstáculo na execução da ação. Om tat sat são palavras de īśvara, "om" significa tudo o universo físico e causal, o absoluto, pela sua pronuncia está associado todo o conhecimento dos vedas. Tat refere-se ao todo e sat aquilo que é real. O mais importante em qualquer oferecimento é śraddhā, em todas as áreas que haja uma mente mais calma e clareza pois desejo autoconhecimento, isso é sattva.

O que não tem śraddhā é tamas, com o desejo é rajas. Com o objetivo maior, do autoconhecimento é sattva.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bhagavad Gita, Aula 16 resumo - Vaidika, Maia

Duração da aula 1h01m57s; cânticos iniciais.

Este capítulo tem como nome "daiva asura sampad": a natureza divina e a natureza "demoníaca", num sentido de uma positiva e outra negativa; uma natureza que conduz à liberação, auto conhecimento, e outra que atrapalha o autoconhecimento.

No capítulo XIII foram falados vinte valores como ahiṃsā, kṣānti, ārjavam, e outros, que são valores universais, e, aqui eles repetem-se. Para ter esse conhecimento é necessário ter desejo por ele e discriminação. Kṛṣṇa ao falar dessas duas naturezas: a natureza daiva é a natureza daquela pessoa que assimilou esses valores e a natureza asura é a natureza daquela que não assimilou esses valores. Em criança, não temos um valor pelos valores. A pai e o mãe dizem para agir de determinada forma e é assim que a criança age, pois, se agir em contrario será repreendida. Mais tarde, a pessoa seguirá esses valores se tiver apreendido o valor dos valores, senão irá deixa-los para trás. Por exemplo, por vezes, é mais fácil ou conveniente mentir em determinadas situações da vida. A assimilação desses valores é o entendimento do que faz mais sentido para mim, do que é mais importante. A pessoa que pensa, fala e age deve estar em harmonia, deve ser coerente; nesse sentido, o que eu espero dos outros eu faço, pois esse é o valor que tenho. A pessoa que assimilou os valores é chamada de daivi, e, a pessoa que faz apenas o lhe é conveniente é chamada de asura.

Nos purāṇas existem rākṣasa e asuras. O rākṣasa é aquele que faz atos destrutivos para a humanidade como Rāvaṇa, que é movido pelos desejos do seu ego. Nos purāṇas os asuras são confusos, as suas ações acontecem sob a ilusão, erro. Na Gītā, asura refere-se a uma pessoa que não assimilou os valores. A professora Glória conta a história de Rāvaṇa no Ramayana.

O que faz o daiva é a discriminação, a capacidade de análise e entendimento - sattva. Rajas é o impulso para o desejo e tamas é a confusão - o que faz de alguém asura. Kṛṣṇa falará mais sobre guṇas no capítulo seguinte.

Kṛṣṇa fala sobre as características dos daivas, a sua riqueza:
- jñāna: uma mente com a capacidade de pensar, entender, questionar;
- dānam: a capacidade de dar, uma natureza generosa;
- damaḥ: valor pela disciplina, autocontrole;
- svādhyāyaḥ: valor pelo estudo e meditação diária;
- abhaya: ausência de medo devido à apreciação de īśvara;
- ārjavam: valor pelo alinhamento (o que penso, falo e faço são coerentes);
- ahiṃsā: valor pela não-violência, mesmo no discurso (vāk tapas);
- satyam: compromisso com a verdade, honestidade (para comigo e para com os outros);
- akrodhaḥ: resolver a raiva;
- tyāgaḥ: capacidade de renunciar, abrir mão de um resultado;
- śāntiḥ: valor por estar quieto, ter momentos de reflexão sobre valores, prioridades, si-mesmo;
- apaiśunam: valor por não falar mal sobre as outras pessoas;
- dayā: desenvolver compaixão, empatia (com os outros seres vivos);
- acāpalam - atenção a pequenos movimentos corporais;
- hrīḥ: modéstia, perceber que qualquer qualidade que se tenha não depende exclusivamente de si, é como um presente que se recebe;
- kṣamaḥ: acomodar as pessoas e situações adversas;
- adrohaḥ: ausência do desejo de ferir outras pessoas;
- dhṛtiḥ: enfrentar uma situação com determinação;

Kṛṣṇa fala depois das características dos asuras:
- dambhaḥ: valor por fingir que tem tantas coisas, preocupação em impressionar;
- darpaḥ: arrogância, colocar-se em superioridade;
- abhimānaḥ: opinião de si-mesmo superior;
- krodhaḥ: ser temperamental, brigar;
- pāruṣyam: ironia, desconsideração;
- ajñānam: conhecimento inadequado.

Kṛṣṇa volta a dizer a Arjuna "mā śucaḥ" - não fique triste - pois ele é uma pessoa daiva. Aqueles que continuam aprisionados, os asuras, não têm discriminação e entram nos três grandes portões: kāmaḥ (desejo), krodhaḥ (o valor pela raiva, irritação, agressão) e lobhaḥ (cobiça). Esses três trazem o declínio, a cegueira, à pessoa. São os portões para a ilusão, a autodestruição. Para ser livre desses portões da escuridão e do sofrimento é necessário entender o limite dos objetos, descobrir a paz inerente ao ser, entender o ser fundamental. Vicāra, questionamento/entendimento, é a porta que vai além do portão da escuridão e sofrimento. O conhecimento do dharma é o meio de conhecimento para a discriminação e a ação.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Bhagavad Gita, Aula 15 resumo - Vaidika, Maia

Duração da aula 1h06m00s; cânticos iniciais.

No universo há diferentes corpos, e dentro do corpo há diferentes partes, cabeça, tronco, braços pernas, etc. Olhando, individualmente, todas as pessoas são diferentes; olhando para a base essencial que faz a pessoa a consciência é apenas uma única, isso é comum a todos. Advaita é a visão do Um, uma unidade, única: o meu corpo que vejo separado dos outros é feito dos mesmo cinco elementos básicos que constituem todo o universo. O mundo físico visível, conhecido ou não, é chamado de virat. Todas as mentes pertencem a uma mente cósmica, isso é chamado de hiraṇyagarbha. Fundamentalmente, não existem diferenças entre as pessoas.

No capítulo XIII, falamos sobre o campo e o conhecedor do campo, o universo e a consciência. Neste capítulo, Kṛṣṇa fala sobre o universo visto como uma árvore - esta imagem é usada nos Vedas. Uma árvore é um conjunto inteiro: raiz, tronco, galhos, flores e frutos. A árvore é comparada ao saṃsāra: a raiz do nascimento do indivíduo é devida à ignorância. Assim, a pessoa vai em busca de entender a verdade do mundo "quem sou eu?" e procura libertar-se da roda do saṃsāra, das adversidades e infelicidade encontrando a resposta para a pergunta anterior

A raiz da árvore é o eterno, invisível. Do tronco nascem galhos, folhas, flores e frutos. Nos galhos inferiores e superirores habitam animais, existem ninhos, etc. As nossas experiências na vida ou me levam para uma situação melhor ou pior, para "baixo" ou para "cima", e as nossas ações dão frutos, de sofrimento ou experiências agradáveis. Na upaniṣad diz "num tronco estão dois pássaros: um que se relaciona com tudo o que acontece, saltando de galho em galho, e, um outro que apenas fica parado e observa". Esses dois pássaros referem-se ao indivíduo (jīva) que interage e ao eterno (ātman) que é pleno, imóvel, satisfeito. O pássaro que salta de galho em galho tem que conhecer o pleno, o outro pássaro.

Nessa imagem, as raízes estão para cima, pois a raiz básica é o eterno, ātman, e, os galhos para baixo. As folhas são os Vedas - por onde a árvore respira. Para acabar com a árvore do saṃsāra é necessário descobrir a raiz - não adianta cortar os galhos. A ferramenta para cortar essa árvore é o machado do desapego (vairāgya), ver a realidade do saṃsāra, conhecer o Eu que é livre de nascimento e morte. Esse instrumento (a sādhana), consiste em ver a ilusão relativa à noção de eu e meu: não vendo a minha natureza eterna e essencial eu projeto neste corpo, mente, a minha noção de eu. Depois do apego à entidade, apego-me a objectos relacionados comigo. Livre dessa identificação, desse defeito que é o apego como conhecimento do Eu interno vejo-me livre de desejo pelos objectos como fonte de preenchimento para mim. Dessa maneira, a pessoa alcança o objeto último da vida.

O que é o eterno, Eu? Esse é a Luz, Consciência. O sol não consegue iluminar essa Luz que jamais se torna objeto, nem mesmo a lua, nem o fogo. Essa consciência tudo ilumina e manifesta-se na forma de todo o universo, assumindo formas diferentes - todo o universo nada mais é que a Consciência (īśvara), e, o indivíduo (jīva) nada mais é que uma fagulha dessa Consciência. A Consciência reflete-se nos cinco elementos e na mente que compõe a pessoa, ao longo do ciclo de nascimentos e torna-se necessário descobrir a natureza fundamental.

Aqui, Kṛṣṇa diz que aquilo que chamamos de matéria é, na realidade, Consciência manifesta como matéria.

Nos āśrams, geralmente, este capítulo é recitado antes das refeições e a professora Glória explica o porquê desse costume.

Neste capítulo, Kṛṣṇa diz "eu sou o universo inteiro, os objetos todos, e os sujeitos, os jīvas, o sujeito que come - que faz a ação - e aquilo que é comido - o alimento. (verso 14)." O ato de comer é um ritual sagrado, o sujeito e o objeto tornam-se um único, o mais subtil do que se come tornam-se os pensamentos. Eu sou o que come, o comedor, o sujeito consciente que se alimenta dos objetos e esses objetos externos, as experiências, fazem parte de mim, da pessoa que sou. Aquilo que é não-eu torna-se eu: dois que se tornam um. É īśvara que faz a transformação dos quatro tipos de comida: a bebida, a mastigada, a sugada, e a que se dissolve na boca (ex: mel).

Kṛṣṇa termina dizendo que existem dois puruṣas: o mutável (o universo manifesto) e o imanifesto (em potencial, o desejo, a ignorância) e, ao mesmo tempo, aquele que está alem desses dois, o que lhes confere vida. Assim, na realidade há apenas um verdadeiro puruṣa, a verdade do todo que sou eu.